QUIETUDE
Conheci a Luiza em um mercadinho perto de casa. Olhávamos os poucos vinhos expostos e começamos a conversar sobre qual seria o melhor dali. Ela me falava rindo e a conversa tornou-se fácil. Trocamos nomes e cada uma foi em seu rumo.
Meu estado de ânimo
andava fatal e esse encontro desviou-me das minhas ideias mortas. E minha
insistência em conversar com estranhos – como se conhecesse há anos – vestiu-me
tranquilamente. Na maioria das vezes, as pessoas olham para mim e abaixam a
cabeça, como se eu fosse mais uma golpista. Percebo pelas roupas e pelo jeito
se é professora e aí que falo sem diálogo. A criatura assustada não vê a hora
de o sinal fechar e bater em retirada. Eu gosto de conversar com qualquer estranho.
Acho excitante, pois gosto de ver a reação das pessoas.
Com a Luísa foi
diferente. Na banca dos abacates, perto dela, peguei na mão um formatado
estranho e comentei com ela que ele devia sofrer bullying dos outros abacates.
E ela riu. Fiquei toda feliz. Vimos as formas inexatas dos tomates, das vagens,
das cenouras e ela me dava saquinhos para que eu usasse nas mesmas compras
nossas. Mostrei como a Heineken estava barata e compramos meia dúzia pra cada
uma de nós. Ela me indicou um pão “maravilhoso” que eu comprei – embora tivesse
um monte de pão na minha casa.
Enfim, ela me
acompanhou nas compras e eu nas dela e pude falar dos meus cachorros com cara
de pobre – o Creito e o Credir – e como ela conhecia a dupla gaúcha, riu até e
cantarolou o refrão “deu pra mim, baixo austral, vou para Porto Alegre,
tchau...
Até que nos
despedimos, felizes e encantadas com a conversa gostosa no supermercado. Às
vezes, a vida é legal.
Ela era tradutora de
uma editora de São Paulo há anos. Era só o que fazia e me contou – o que eu
achei o máximo – que todas as noites toma umas duas doses de uísque no fim das
tardes. Onde você mora? “perguntei”, e ela me falou, mas não conheço quase nada
da cidade. Adotei, como fuga dos
desprazeres que a vida traz e para evitar o sofrimento que pode advir dos relacionamentos
humanos, a defesa mais imediata: o
isolamento voluntário, o manter-se à distância das outras pessoas. A felicidade
passível de ser conseguida através desse método é, como vemos, a felicidade da
quietude. Isso que escrevi acima é do Freud em seu livro O mal estar da civilização. Mas, bem antes de lê-lo, eu me encaixei
na casa e nos textos e tenho tido menos crises do nada.
Voltando à Luísa,
trocamos cartões - sei que não é gadgets – mas o meu é tão lindo que ....
combinamos de sair, ver filmes, tomar café, almoçarmos e todas essas coisas. Um
abraço e risinhos derradeiros. Sabia que nunca mais iria àquele supermercado.
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