ZUMBIS
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Será que há brigas por ideologias ainda? Brigas de
soco de agarrar o paletó, de olhar com ódio o filho da puta de meter a mão na
cara do hipócrita. Será que ainda existe esse tipo de luta? De levantar da
cadeira de um bar, inflado de palavras perfeitas, bradando contra quem? Pra
quem?
As lutas, agora, não têm mais força física. Não têm
paixão. Não têm a iminente vontade de vociferar trechos de livros ou até uma
poesia para insuflar uma ideia! Hoje, brigam porque bebem e cheiram e se tornam
valentes sem saber por que, mas se tornam valentes como nunca foram. E o outro
o que vai levar socos e pontapés – eles nem o conhece. Mas, como sempre, a exaltação cede o lugar, suavemente,
a um face a face burlesco e caricatural entre duas criaturas-cadáver, reanimadas,
usualmente, pelos hábitos estimulantes noturnos, que perambulam tropeçando nos escombros
da sua autonomia da vontade: um morto-vivo.
Os zumbis são a coisificação do atual sujeito.
Perderam a alma, morreram e não sabem e querem recuperar a alma apossando-se do
outro. Se eu ingeri-lo volto a ser.
Vem de longe esse tédio que me tira o fôlego e o
prumo da vontade de viver.
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