Aquele que vê

 

Deu um lapso na minha pessoa e de repente eu estava lá à frente, bem na vista da sala de jantar a família perfeita.

Sempre os vigiei de longe. Sabia o horário que o pai chegava, a que horas a dona Hercília ia ao salão de beleza porque era tudo tão certinho, tão previsível, calmo, feliz?

Tinha muito tempo para observar, olhar, espiar, bisbilhotar, analisar, sigilosamente, as predileções de Kira, Otávio, seu Francisco e a dona Hercília. O risco para quem observa é mínimo e a pulsão incontrolável.

 Se alguém soubesse desse meu prazer muitas pessoas afirmariam ser, esse hábito, um problema mental, uma psicopatologia cujo sintoma transformar-me-ia em um voyeurismo. 

 No entanto, a minha observação – pelas frestas - era motivada pela inveja de suas horas de almoço, com toalhas e guardanapos e com a comida em lindas travessas. Meus vizinhos tocavam música e dançavam, além de jogarem buraco todos juntos. Desejava ver brigas, na casa da vizinha, tristezas, tapas, xingamentos, mas a harmonia reinava, assim como a rotina.

Simples assim. Mas tratava-se só de curiosidade e do congelamento de minhas angústia, perdas e frustrações de uma sublimação para preservar minha alegria, um mecanismo de sobrevivência.

A negligência com a alimentação, a desorganização da casa, o fato de minha mãe ficar toda a semana fora e de quase nunca acontecer uma refeição em família, encontravam lá o aconchego, mesmo abstrato, mas que preenchia o lugar dos meus pais, vazio. O meu voyeurismo era feito de outra amálgama.

Dentro da minha casa eu encontraria meu pai bêbado – falando sozinho – e minhas irmãs ao deus dará.

Minha cama ancorada por tijolos, emulava prazer e choro. Mas lá eu fazia muita coisa. Eu lia as obras, eu lia, lembrava de nomes e escrevia na parede, enfim....

Às sete horas, uma tensão, como um nevoeiro, perpassava pelos cômodos silenciosos da minha casa. Esse momento foi eliminado, pois postava-me a observar a noite dos meus vizinhos.

E depois de tanto abandono emocional acontecendo, eu não conseguia sair do meu mundo. Adiei, por incompetência, os relacionamentos, a vida exterior. O sentimento de inferioridade paralisava-me, estilhaçava minha autoestima e originava uma série de percepções negativas sobre a minha pessoa.

Deu um lapso na minha pessoa e de repente eu estava lá à frente, bem na vista da sala de jantar a família perfeita.

 

 

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