Lucas
Eu tinha
quinze anos quando entrei, tremendo de frio, na sala de leitura da biblioteca
pública no centro da minha cidade. Como sempre, conferi o retrato do doador do
primeiro acervo, Dr. Carlos Miguel Novaes, e era automático: o sorriso irônico
do Dr. Carlos, tentando ser sério, posado por horas e horas, centralizava-me de
forma reconfortante. A sala de leitura parecia uma espécie de alcova pequena
com um teto elevado. Havia muitos ganchos para pendurarmos casacos, bonés e um
espelho antigo pregado em um móvel com pés quadrangulares que, barrando
propositadamente um dos ângulos da sala, dirigia o usuário ao funcionário
encarregado.
Naquela
terça, a sala estava cheia. Mostrei rapidamente meu cartão de leitor para a
Lúcia que foi buscar o livro que lia, ali, todos os dias do Ítalo Calvino.
Procurei meu lugar e conferi o horário. Tinha duas horas e quinze. Abri meu livro no começo. Gostava de reler o
começo:
Você vai começar a ler o novo romance de
Ítalo Calvino, Se um viajante numa
noite de inverno.
Relaxe. Concentre-se. Afaste todos os outros pensamentos. Deixe que o mundo a
sua volta se dissolva no infinito. É melhor fechar a porta; do outro lado há
sempre um televisor ligado. [...] Escolha a posição mais cômoda: sentado,
estendido, encolhido, deitado. [...] Numa poltrona, num sofá, numa cadeira de
balanço, numa espreguiçadeira, num pufe. Numa rede, se tiver uma.
Quando
estava abrindo o livro na página que parara, um senhor, que eu já vira por lá
mesmo, sentou-se no lugar que havia em minha mesa e aproximando-se muito de mim
começou a conversar comigo. O problema era que ele falava alto demais - a
abordagem fora em voz muito alta – e o cartaz da minha frente parecia gritar:
SILÊNCIO e o RESPEITO!!!
Tudo
isso me deixava meio constrangido, mas meu vizinho de mesa parecia não se
importar. Dizia que eu era filho de um muito amigo seu e outras informações que
eu não queria entender. De repente, abrindo uma carteira de couro marrom meio
esgarçada, olhou-me por um tempo, sem falar nada, como se arrumasse o curso dos
pensamentos e tirou, do meio de dinheiro, papéis dobrados e cartões, uma foto.
Entregou-ma e, com emoção, disse ter pertencido à sua mulher. Pediu-me para ler
o que estava escrito no verso e como não entendi nada, olhei para ele com um
olhar mendicante e constrangido. Sem desviar os olhos e com uma ponta de
orgulho disse-me que era adeus em alemão. A memória apossou-se de meu vizinho,
tomou conta da sala redemoinhando nas peças imóveis que nos cercavam e nos
cartazes espalhados pela Sala de leitura... As palavras saíam seguras de sua
boca emoldurada por um bigode mal cuidado. Falou-me sobre a mão pequena de sua
mulher na sua, no porto que, abandonado, o levaria à guerra. Relembrou-se da
foto que permanecia em sua mão, ali colada, suada, dolorida, ferindo o seu corpo
que se afastava cada vez mais do ponto da terra onde lhe acenava a mulher que
mais amara na vida e a quem iria dedicar-se inteiramente a esse fim. “Adeus”,
disseram-se. Escreveram-se muito. Recebera a notícia da morte dela por uma
carta oficial junto com três cartas suas que ela nunca chegara a receber. E era isso, suspirou. E mais o sentimento do vazio de sua
existência que parecia exaurir-se lentamente, dia após dia. O senhor, ao meu
lado, olhou-me. Seu olhar proclamava o vazio. “Até amanhã”, ele disse. E
retirou-se.
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