Alberto de Oliveira
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RITMO Por ser decassílabo e apresentar correspondência fixa
entre a 6º e a 10° sílabas, esse poema ritmo heroico. |
VASO CHINÊS
Estranho mimo aquele vaso! Vi-o.
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Entre um leque e o começo de um bordado.
Fino artista chinês,
enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor
sombrio.
Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura
Que arte em pintá-la! a gente acaso
vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de
amêndoa.
(Alberto de Oliveira. Sonetos e poemas, 1886.)
OBSERVAÇÕES
Subjacente
aos versos do parnasiano, podemos perceber um admissível tom amoroso e
sentimentalista, como se “a singular figura” e “pintá-la” remetesse a uma
figura feminina, o que iria de encontro à ideia de distanciamento emotivo e
neutralidade, axiomas parnasianistas.
A
poesia revela descrições que o eu-lírico deflagra a respeito de um vaso,
aqui visto de modo especial, e do seu artista. Numa situação ocasional, o
sujeito é tomado de sobressalto pelo belo brilho do objeto inanimado, a
partir de então, interessa-se em observá-lo minuciosamente.
A
análise pormenorizada do objeto é feita de modo a esmiuçá-lo ao ponto de chegar
ao seu feitor. Ao fazê-lo, a imaginação é posta em prática. Imagina-se,
através da ornamentação que compunha o vaso, um autor melancólico, triste, que
sofre provavelmente por um amor não correspondido. Concebe-se, ainda, que o
modo encontrado para transpor seus sentimentos é a arte. É se valendo dela que
o artista ornou o objeto de impressões de sua vida. O eu-lírico ao inferir em
um simples vaso, o fez de modo a ir além do que era visto. Supõe-se, até mesmo,
que o termo “chinês”, conferido ao ser inanimado, nome que figura na
poesia aqui ressaltada, deverá estar relacionado à pintura presente no vaso,
que provoca lembranças do formado do olho dos chineses captadas pelo escritor e
que foram captadas pelo descritor.
Assim, antes mesmo de todo o sentimentalismo se esvair, ou deixar-se perceber,
a poesia é encerrada.
PRIMEIRA
ESTROFE
Estranho
mimo aquele vaso! Vi-o.
Casualmente,
uma vez, de um perfumado
Contador
sobre o mármor luzidio,
Entre
um leque e o começo de um bordado.
O
poeta não só descreve um objeto, como também um ideal, qual seja, o ideal da
estética antiga greco-romana, muito buscada pelos parnasianos de modo geral.
O objeto descrito, um vaso grego feito com
esmero, revela-se a capaz de comunicar uma longa história e uma longa tradição
àquele que souber apreciá-lo. E o que surpreende no poema é justamente isso:
ele consegue, pela sinuosidade considerável da sintaxe, sugerir, a quem souber,
claro, apreciar, alguma coisa do sabor da poesia escrita em grego e latim,
permitindo, assim, que dois aspectos característicos da boa poesia possam ser
apontados: em primeiro lugar, o fato de que expande os limites da nossa língua e,
em segundo, que usa a forma do texto para comunicar algo além, para nos fazer
sentir de modo mais palpável o que nos é descrito.
SEGUNDA ESTROFE
Fino
artista chinês, enamorado,
Nele
pusera o coração doentio
Em
rubras flores de um sutil lavrado,
Na
tinta ardente, de um calor sombrio.
O
autor trata o vaso como um ser humano que ele aprecia como se fosse da família,
e o deixa sobre uma mesa de mármore junto a outros objetos preciosos.
TERCEIRA ESTROFE
Mas,
talvez por contraste à desventura,
Quem
o sabe?... de um velho mandarim
Também
lá estava a singular figura;
QUARTA ESTROFE
Que
arte em pintá-la! a gente acaso vendo-a,
Sentia
um não sei quê com aquele chim
De
olhos cortados à feição de amêndoa.
O
número de epítetos, de caracterizações à copa, ou seja, ao vaso, é sem dúvidas
notável e nos remete de imediato aos epítetos que comumente encontraremos na
poesia antiga quase toda. "trabalhada de divas mãos", ou seja, por
divas mãos (o uso da preposição tem um quê de arcaico) e "um dia vinda do
Olimpo" são orações que ajudam a descrever o objeto.
Logo
depois teremos "como já cansada", que serve aqui como uma subordinada
adverbial explicativa ao verbo "servia" da oração anterior, e, num
terceiro degrau na cadeia subordinativa, teremos "de servir aos
deuses", que serve como substantiva objetiva indireta em relação a
"cansada".
É
um período relativamente complexo mesmo quando colocado na ordem direta e que
faz uso de muitas orações subordinadas reduzidas: de particípio (trabalhada,
cansada), infinitivo (servir) e gerúndio (vinda).
Mas
o que realmente espanta é o modo como o poeta embaralha a sintaxe e dispõe os
elementos da frase de maneira estilhaçada, como que sugerindo de modo literal a
sinuosidade da construção daquele vaso.
Depois
a locução adverbial "um dia", que será completada só no começo do
verso quatro por "Vinda do Olimpo", e então adentramos o reino do
terceiro verso, no qual a sintaxe se estilhaça ao extremo: "Já de aos
deuses servir como cansada". Seguindo a análise sintática que propus
antes, sabemos que "Já", no início do verso, é advérbio que
caracteriza um verbo que só aparecerá no final: "cansada". O mesmo
ocorre com a preposição "de", que faz parte da estrutura verbal de
"cansada". Logo após, "aos deuses" é objeto indireto do
verbo que surge logo em seguida, "servir", e "como" é a
conjunção que dá partida à oração e que deveria em tese iniciar o verso, já que
conecta a oração de que consiste a maior parte desses dois últimos versos da
estrofe à oração iniciada nos dois anteriores.
Nessa
estrutura toda, tão complexa, o que se percebe é que a oração que ocupa o
terceiro degrau da subordinação sintática, ou seja, a substantiva objetiva
indireta "de servir aos deuses", está toda ela englobada dentro da
estrutura da oração que lhe serve de principal, ou seja, a adverbial
explicativa "como já cansada". Isso é muito incomum em português. A
ordem corriqueira seria incluir a oração subordinada logo após a principal ou,
no mínimo, isolá-la por vírgulas. Todavia, não é nem de longe o que ocorre
aqui.
A
sintaxe que Alberto de Oliveira emprega não parece estar seguindo a sintaxe do
português e sim a de línguas flexionais como o latim e o grego, nas quais,
graças à marcação morfológica ao fim das palavras que lhes dá a função
sintática que devem desempenhar, a colocação das palavras nos períodos é muito
mais livre. Uma vez que as formas nominais dos verbos também podem exigir seus
complementos verbais, então, no caso de orações em latim ou em grego que contêm
com tais formas em sua estrutura, é comum que toda a estrutura dessas orações
esteja englobada dentro da estrutura da oração principal, quase como uma
espécie de parêntesis. Um exemplozinho simples, retirado de um manual didático
de latim muito usado em universidades brasileiras (o Reading Latin), dá como
exemplo ao aluno a seguinte frase: dux milites hortatus audacter se in
proelium tulit.
QUANTO À FORMA
1)
Resumo sobre soneto
- Um
poema de 14 versos é o que chamamos de “soneto”.
- Existem
quatro tipos de sonetos.
- O
soneto petrarquiano apresenta dois quartetos e dois tercetos.
- O
soneto shakespeariano apresenta três quartetos e um dístico.
- É
monostrófico o soneto que possui apenas uma estrofe.
- É
estrambótico o soneto que possui até três versos extras.
- O
soneto foi criado pelo italiano Giacomo da Lentini e foi popularizado pelo
italiano Francesco Petrarca.
- William
Shakespeare popularizou o soneto na Inglaterra séculos mais tarde.
QUANTO À POSIÇÃO NA ESTROFE
·
Rimas
alternadas (ou cruzadas):
Combinam-se alternadamente, seguindo o esquema ABAB.
·
“O meu amor
não tem (A)
importância nenhuma. (B)
Não tem o peso nem (A)
de uma rosa de espuma!” (B)
(Cecília Meireles)
·
Rimas
emparelhadas (ou paralelas):
Combinam-se de duas em duas, seguindo o esquema AABBCC.
·
“Vagueio
campos noturnos (A)
Muros soturnos (A)
Paredes de solidão (B)
Sufocam minha canção.” (B)
(Ferreira Gullar)
·
Rimas
interpoladas (opostas ou intercaladas):
Combinam-se numa ordem oposta, seguindo o esquema ABBA.
·
“De tudo, ao meu
amor serei atento (A)
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto (B)
Que mesmo em face do maior encanto (B)
Dele se encante mais meu pensamento.” (A)
(Vinícius de Moraes)
·
Rimas
encadeadas: Combinam-se entre
estrofes, nomeadamente tercetos, seguindo o esquema ABA BCB CDC.
·
“O sulmonense
Ovídio, desterrado (A)
na aspereza do Ponto, imaginando (B)
ver-se de seus parentes apartado, (A)
·
sua cara
mulher desamparando, (B)
seus doces filhos, seu contentamento, (C)
de sua pátria os olhos apartando; (B)
·
não podendo encobrir
o sentimento, (C)
aos montes e às águas se queixava (D)
de seu escuro e triste nascimento.” (C)
(Luís Vaz de Camões)
·
São também chamadas
de rimas encadeadas, quando as palavras que rimam se situam no fim de um verso
e no início ou meio do outro.
·
“Salve Bandeira do
Brasil querida
Toda tecida de esperança e luz
Pálio sagrado sobre o qual palpita
A alma bendita do país da Cruz”
(Francisco de Aquino Correia)
·
Rimas
misturadas (ou mistas): Quando
apresentam outras combinações e posições na estrofe, sem esquemas fixos.
·
“Vou-me embora
pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive.”
(Manuel Bandeira)
·
Versos
brancos (ou soltos): São versos que
não rimam com nenhum outro verso.
·
“Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…”
(Cecília Meireles)

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