DEPRESSÃO EM IDOSOS
Esqueci
ou tomei? Nortriptilina, imipramina, Neural, Losartana...tudo aqui. Melhor
tomar...Vou deixar uma fitinha, na mesinha de cabeceira, mostrando que eu já
tomei.
Ontem
me senti amaldiçoada! Perdi minha prótese faltando quatro dias para eu viajar
para a Califórnia, onde meu filho mora com a família. Transformei a casa num
lixão à procura dos meus dentes, senti ser uma punição por eu ser assim, como
sou.
Uma falta de energia, um sono...uma
preguiça de sair, até pra ir à padaria!
Nem os
filmes não me interessam...será que é depressão? Não é. É que tenho sentido que
não tem sentido o meu dia a dia, inútil...vazio...e não quero preenchê-lo com
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Que não
me dão prazer. Prefiro isolar-me ou manter-se recluso a conviver com pessoas
chatas. O mais triste é o afastamento da mínima família que tenho, todos ele
ocupados pela vida.
E é
nessas férias da vida vivida que as lembranças voltam, às vezes, como pesadelos
dos quais acordo em prantos ou gritando para me proteger de um perigo. O
inconsciente burla o racional. É um processo muito dolorido alijar uma pessoa
da roda do mundo, com uma a aposentadoria minando os recursos mínimos de minha
sobrevivência, e construindo cada vez mais o sentimento de frustração: nunca
vou ver as Cataratas do Iguaçu.
Perder o emprego, as mortes tão sofridas e o
progressivo afastamento dos que antes viviam mais próximos, deixam cada vez
mais nítida a noção de que a vida é finita e achegada e que exige uma grande capacidade
de enfrentamento da velhice estampada pelas rugas e pela flacidez - uma
caricatura do que fui.
Chegar
aos 70 anos e perceber tudo, estilhaça-se. Quando se descobre a trama, os fios
que a tecem, ou se entra num surto negro como um túnel, ou aceita o dia após o
outro. Não se consegue entrar na gang, mas se tem menos culpa por ter visto o
rei nu. Está lá por anos, à espera da gênese das mulheres da síndrome do ninho
vazio, das viúvas que leram a cartilha ou do acolhimento e aconchego.
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