[RESENHA] ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER
De
Sigmund
Freud
(Edição crítica bilíngue seguida do
dossiê “Para ler Além do princípio de prazer de prazer”)
Resenhado por
Jennifer Aline Zanela1
(zanela.jennifer@ufjf.edu.br)
André Malina2
(andremalina@yahoo.com.br)
En effet, falar de um livro que, além de trazer no conteúdo
um texto importantíssimo de Sigmund Freud, assim como outros textos de análise
e reflexão, normalmente é tarefa para especialistas. Uma característica,
contudo, pode ser inserida como indagação para tal tarefa, relativizando-a.
Logo no prefácio da edição, Oliveira e Iannini (2020) trazem a lume um
propósito do livro questionando o provável mainstream:
Faremos
do APP uma peça de museu, separada por parede de vidro e exposta a nosso olhar
de turistas, a quem cabe a contemplação, quem sabe a veneração? É esse o
propósito de uma edição crítica, destinada apenas a leitores altamente
especializados? (OLIVEIRA E IANNINI, 2020, p. 18).
A
partir desse reclame de necessidade dialógica, iremos transitar, como não
especialistas, no percurso desafiador de tentar trazer uma compreensão, em
forma de resenha, da edição crítica bilíngue de APP.
Cabe
observar, de imediato, o capricho da edição, com uma belíssima capa e
contracapa feitas por Alberto Bittencourt, cujo projeto gráfico de Diogo
Droschi mescla texto com fotografia do Museu Sigmund Freud de Viena. Na
contracapa destaca-se o conteúdo: além do próprio texto do APP, um dossiê para
leitura, o prefácio e o prólogo. Talvez na edição coubesse também mencionar na
contracapa que há no interior do livro uma legenda e um “modo de usar”, tão
importantes para nortear a leitura. Ambos se encontram, em local acertado,
imediatamente após o texto freudiano de APP e antes das discussões sobre fontes
e do posfácio.
Embora
haja uma organização metódica quando se escreve um livro, com a pretensão de
que seja lido nessa sequência, muitas vezes, o leitor subverte essa ordem.
Essa é uma grande vantagem de ler um livro: a
possibilidade de subversão. Por exemplo, no caso da presente edição,
imediatamente após o posfácio e antes da apresentação curricular dos autores,
ela traz informações sobre a Coleção das
Obras Incompletas de Freud, sendo uma proposta de oferecer, para além de
uma nova tradução fidedigna aos conceitos de Freud, uma organização distinta ao
tratamento dado ao texto. Desta forma, podemos considerar uma coleção
‘inovadora’, mas também ‘subversiva’. Por isso, talvez devesse fazer essa
menção logo no início dos livros da coleção, embora possa parecer óbvio pelo
título ou pela linha dos textos oferecidos ao leitor.
Felizmente, os leitores costumam ser tão
‘inovadores’ e/ou ‘subversivos’ quanto os editores Gilson Iannini e editora
Autêntica. Por vezes, os leitores acessam o fim do livro antes de começá-lo, em
um esforço contemplativo e até mesmo ansioso e pulsante da ‘experiência de
leitura’.
O
RETORNO DO CHAPÉU[1]:
O TEXTO ALÉM DO PRINCÍPIO DE PRAZER
DE FREUD
Oliveira
e Iannini (2020) afirmam que APP pode ser considerado um texto controverso – no
interior de uma obra também controversa – de Freud. Essa obra, que chamou a
atenção de pensadores e pesquisadores diversos foi compreendida como
“Especulativa demais, excessivamente biologizante, contaminada pelas
experiências de luto de seu autor, inútil para a prática clínica” (OLIVEIRA e
IANNINI, 2020, p. 9). Controvérsias à parte, o que não se pode objetar é o
grande interesse que despertou, seja pela contemplação ou pela negação dos
conceitos desenvolvidos por Freud.
Em
APP, Freud tem a possibilidade de rever sistematizações e fundamentações
conceituais da Psicanálise, sobretudo em relação à predominância explicativa do
binômio prazer-desprazer. Diante do
uso do termo “pulsão de morte”, que vinha sendo trabalhado por autores
psicanalíticos, como agressão, impulso e/ou instinto para a morte, Freud
reapresenta ao leitor uma cisão
estrutural que existiria em todo e qualquer organismo vivo: o anseio pelo retorno ao inorgânico e uma
força que busca prolongar a vida para possibilitar uma morte interna.
Organizado
em sete seções, a presente edição nos fornece uma experiência talvez semelhante
a que se estivéssemos tendo contato com o manuscrito original. Ao lado da
tradução para o português, encontra-se o texto original em alemão, permitindo
ao leitor identificar o uso dos termos cunhados por Freud e a opção do tradutor
na escolha por determinados termos.
O
leitor conhecedor da língua alemã pode aventurar-se na leitura do texto
original, bem como aos curiosos torna-se possível aproximar-se da estrutura e
organização literária do pensador austríaco. Além disso, mantiveram-se formas
de visualização que permitem ao leitor identificar o processo de escrita do
texto através do emprego de diferentes fontes e marcações textuais,
demonstrando o momento em que Freud escreveu determinado trecho (primeiro
manuscrito, em 1919, o segundo manuscrito, de 1920, primeira edição do texto em
1920, segunda em 1921, terceira em 1923 e quarta edição em 1925).
Assim, o leitor pode caminhar na obra diante da possibilidade de fazer comparações em
relação ao texto tal como foi escrito; isto é: trechos suprimidos, reelaborados
e, por fim, revistos. Como dito anteriormente, para apresentar a metodologia de
leitura, a edição conta com legenda e a explicação do modo de usar.
Além
desse guia explicativo, o texto de APP contém notas de rodapé de Freud que são
mantidas e, ao fim, Cristiana Facchinetti e Gilson Iannini ainda elaboraram um
interessante comparativo entre as versões traduzidas que se tem de APP.
Além disso, o leitor é presenteado com notas que
auxiliam na compreensão dos conceitos discutidos, contextualizando e trazendo
propostas explicativas para os trechos de Freud, inclusive relacionando-os a
outras obras do autor. Dessa forma, mesmo diante de uma obra de difícil
compreensão, o leitor iniciante na teoria psicanalítica pode contar com o
devido auxílio para a imersão nesta leitura.
Diante
da formulação do “novo” dualismo pulsional de pulsão de morte e pulsão de vida,
Freud redefine, em termos metapsicológicos,
o entendimento do conceito de pulsão e de organização do aparelho psíquico.
Em nossa leitura, o texto do APP nasce de inúmeras indagações do autor,
sobretudo em relação à primazia do princípio de prazer como princípio
explicativo central.
Na seção I, Freud retoma o binômio prazer-desprazer
na conexão que esses dois polos estabelecem entre si e as implicações desse
processo para o funcionamento psíquico. A conclusão dessa primeira seção é a de
que “[...] não parece necessário reconhecer uma limitação adicional ao
princípio de prazer” (FREUD, 2020, p. 69).
Todavia,
a seção II manifesta pela necessidade de compreender a reação do aparelho
anímico às influências do exterior, que poderia, de alguma forma, trazer novas
evidências às constatações até então discutidas. A seção II é estruturada a
partir da identificação empírica de dois casos, neurose de guerra e brincadeira
infantil, casos em que o princípio de prazer parece não explicar a totalidade
das ações em que há a busca pelo desprazer e não pelo prazer. Afirma-se que,
nessa condição, determinadas atividades estariam além do princípio de prazer
enquanto “[...] tendências que seriam mais primevas que ele e independentes
dele” (FREUD, 2020, p. 85).
Na
seção III surge o conceito de compulsão à repetição, à medida que se verifica
haver determinados aspectos no indivíduo que se mantêm e se manifestam
recorrentemente em suas vivências, marcando assim uma passividade sobre o seu
próprio destino: “[...] encontramos a
coragem para supor que realmente exista na vida anímica uma compulsão à
repetição que sobrepuja o princípio de prazer” (FREUD, 2020, p. 97, grifos
nossos).
No
arranjo conceitual constituído por Freud, atravessado por ideias especulativas
e mesmo inacabadas, o texto não consegue responder às inúmeras questões que abre ao leitor. Isso pode ser, de
antemão, um complicador para a leitura de APP, mas também pode ser considerado
como uma força motriz que leva a questões que serão retomadas em outras obras
do autor. A exemplo disso, a seção IV dá início a uma discussão vinculada à
primeira tópica do aparelho psíquico do Inconsciente–Pré-consciência–Consciência.
Nesta
seção, Freud (2020) oferece duas conclusões que, a priori, parecem superficiais, mas que representam a oportunidade
de refletir sobre a força que as pulsões exercem: “Contra o que vem de fora há
uma proteção [...] com relação ao que vem de dentro, a proteção é impossível”
(FREUD, 2020, p. 111, grifos nossos).
O
texto de APP apresenta uma série de idas e vindas conceituais, de modo que, na
construção da teia, Freud retorna diversas vezes a ideias desenvolvidas em
seções anteriores. O mesmo acontece na seção V, na qual o autor retoma ideias
sobre a brincadeira infantil, o sonho do neurótico, a compulsão à repetição,
dentre outros elementos. Nesse caminho, Freud sistematiza uma nova definição
para o conceito de pulsão, como,
afirma ele, “[...] uma pressão inerente ao
orgânico animado para restabelecer um estado anterior” (FREUD, 2020, p.
131, grifos do autor). Até então a pulsão de morte não aparece explicitamente,
todavia, a partir dessa definição de pulsão, questiona-se: qual seria a
natureza conservadora do ser vivo que toda pulsão busca restabelecer? Distante
de qualquer caráter místico, Freud defenderá que essa pulsão visa ao estado
inorgânico, inanimado, ou seja, a morte. Essa ideia é expressa nas palavras do
autor:
Essa
meta deve ser bem mais que um estado antigo, um estado inicial que o ser vivo
um dia abandonou e ao qual ele anseia retornar através de todos os desvios do
desenvolvimento. Se nos for permitido supor, como uma experiência sem exceção,
que tudo o que é vivo morre por razões internas,
retorna ao inorgânico, então só nos resta dizer: A meta de toda vida é a morte,
e, remontando ao passado: O inanimado
esteve aqui antes do vivo (FREUD, 2020, pp. 135-137).
Nessa
ideia, a pulsão de vida é responsável por conduzir o indivíduo à morte e manter
a possibilidade de retorno ao inorgânico somente por aquilo que for imanente, a
morte natural. Nesse dualismo pulsional e paradoxal, em que “o que resta é que
o organismo só quer morrer à sua maneira; mesmo esses guardiães da vida,
originariamente, foram os serviçais da morte” (FREUD, 2020, p. 139).
Para
fundamentar essa análise, Freud apresenta princípios biológicos que estarão
presentes na seção VI. Aliás, esta seção não existia originalmente no primeiro
manuscrito de 1919, o que pode indicar, em nossa leitura, a necessidade que
Freud verifica de distanciar-se de uma concepção mística (quiçá meramente
especulativo-filosófica) da morte. Os estudos da biologia parecem indicar a
Freud que todo organismo vivo caminha para a morte, isto porque “a biologia é,
verdadeiramente, um reino de possibilidades ilimitadas; dela podemos esperar
esclarecimentos os mais surpreendentes e não podemos adivinhar que respostas
ela daria” (FREUD, 2020, p. 195).
Finalmente,
a seção VII traz de volta o princípio de prazer para a discussão. Freud (2020)
apresenta que não há uma oposição entre esses processos que continuam ocorrendo
simultaneamente. Isto é, por mais que o binômio prazer-desprazer não explique
totalmente as ações, em que pese à ação pulsional da morte e vida, isso não
significa que o princípio de prazer é anulado. Freud (2020), no entanto, parece
indicar que essa relação não está totalmente desenvolvida em APP e termina com
uma citação de Rückert: “O que não
podemos alcançar voando, precisamos alcançar mancando” (FREUD, 2020, p. 205).
Neste
caso, seria esta citação uma metáfora dos conceitos desenvolvidos em APP?
Estaria a pulsão de morte claudicante enquanto conceito? De fato, a leitura
deixa em aberto para a possibilidade de tudo ser uma mera especulação que
poderia ser desfeita por novas teorias biológicas. De todo modo, o convite para
essa imersão conceitual em APP pode explicar por que essas ideias dicotomizaram
o círculo psicanalítico.
PARA
LER (E INTERPRETAR) APP: UM MERGULHO NAS FONTES PSICANALÍTICAS, FILOSÓFICAS,
CIENTÍFICAS E LITERÁRIAS
A
nosso ver, o dossiê para ler Além do
princípio de prazer talvez seja o grande traço renovador desta edição do
texto de Freud. Imbuído da preocupação de interpretar as menções que Freud faz
à psicanálise, à filosofia, à biologia e à literatura, os textos que se seguem
fornecem uma possibilidade de interpretação do motivo da menção de Freud a
estas áreas e do lugar dessa referência no texto do autor. Eles são
possibilidades, caminhos analíticos e não devem ser vistos como manuais
estanques ou verdades absolutas.
Para
sustentar essa ideia, compreende-se que a interpretação de APP busca desvendar,
significar ou dar sentido às inúmeras investidas de Freud à própria
Psicanálise, à Literatura, à Filosofia, à Biologia etc. Por isso, é um possível
caminho interpretativo do quebra-cabeça
maior que Freud deixou à humanidade. Diante dessa condição, buscaremos
apresentar a querela argumentativa que aí se estrutura.
Em Fontes Psicanalíticas, Andrade et al (2020) esclarecem a referência psicanalítica recorrida por Freud
na discussão de alguns conceitos que aparecem em APP, como energia livre e
ligada, os estudos sobre neuroses de guerra, a brincadeira infantil fort-da, a natureza da libido e a
significação do destino, conservação e regressão, pulsão agressiva, princípio
de nirvana e impulso para a morte através da libido. Em cada um desses
elementos, busca-se apresentar e fundamentar a origem dessas ideias em outros autores
como Ferenczi, Jung e Pfeifer, bem como a origem dessa discussão em outras
obras de Freud.
Essa
estrutura parece conduzir o leitor a identificar caminhos para o aprofundamento
na leitura de APP, bem como a compreensão e o preenchimento de lacunas que
Freud aponta, mas não aprofunda. (ANDRADE et
al, 2020).
Já
em Fontes filosóficas de Freud: Platão,
Schopenhauer e Nietzsche, apesar do sumário destacar o conjunto dos
filósofos, há três análises específicas para cada um deles. A primeira análise,
Eterno retorno do mesmo, realizada
por Ernani Chaves, é sobre Nietzsche e tematiza a apropriação do filósofo por
Freud: a ideia de “eterno retorno do mesmo”, explorada pelo autor de Assim falou Zaratustra. Tal ideia parece
ter sido interpretada por Freud de duas formas: pelo aspecto mítico e não pelo
aspecto ético e, em segundo lugar, por meio de uma valoração negativa e trágica
e não pela positivação construtiva nietzschiana. Tal interpretação deu a Freud
possibilidades de compreensão de pacientes neuróticos e mesmo de explicação das
formas pelas quais os não neuróticos se comportam. Ao mesmo tempo, desde um
ponto de vista social mais amplo, a apropriação do “eterno retorno do mesmo”
sob a ótica da ‘negatividade trágica’ mostra implicitamente a inserção de Freud
em seu tempo histórico:
Para
Freud, ao contrário, se Nietzsche, com seu eterno retorno do mesmo, permanece
preso ao mito que o Freud aufklärer
insiste em desmistificar – pensemos na apropriação reacionária do “mito” numa
Europa plena de antissemitismo –, a hipótese de um “além” (novamente Jenseits) do princípio de prazer
instaura, no âmago da existência humana, uma dimensão TRÁGICA, paradoxalmente
enunciada pela própria “filosofia trágica” de Nietzsche (CHAVES, 2020, p. 316).
Cabe destacar a importância dessa parte do texto sobre
fontes filosóficas para compreensão de determinados autores (no caso da
primeira análise, Nietzsche) para construção de conceitos e mesmo do tratamento
psicanalítico. Essa parte do texto enuncia de forma marcante a gênese da influência
de Nietzsche, ou seja, os aspectos conceituais e de trajetória deste autor, que
culminaram no conceito de “eterno retorno do mesmo”, em detrimento de esmiuçar
mais as implicações (e as aplicações) desse conceito na obra de Freud e,
principalmente, no APP.
Esse
privilégio atribuído ao autor referenciado por Freud ao longo de sua obra e,
especificamente no APP, tem continuidade quando a influência de Schopenhauer,
em especial quanto à questão da pulsão de morte (e de vida), será discutida por
Carlos Roberto Drawin e Eduardo Ribeiro da Fonseca. Em A morte como finalidade da vida,
o trajeto teórico de Schopenhauer no desenvolvimento das noções de
“vontade” e de “representação” ganha centralidade no texto de Drawin e Fonseca
(2020).
Em
Freud, entretanto, cabe refletir: a vontade está tensionada na pulsão de morte,
na relação com o intelecto enquanto uma característica metafísica da natureza,
envolvida como traço desprovido de consciência (vontade inconsciente)? Ou isso
seria uma característica da formulação teórica de Schopenhauer sem influência
decisiva na construção teórica de Freud?
É
correto dizer, de outra forma, que talvez a proposição apresentada ganhe relevo
nas preocupações de Freud em APP, mas não “apareça” tal qual Schopenhauer tenha
formulado, como é o caso da distinção entre uma metafísica, de Schopenhauer, e
uma metapsicologia, de Freud, ou entre filosofia e ciência, respectivamente?
Além das possíveis aproximações e distanciamentos da obra de Schopenhauer para
construção da teoria freudiana, cabe visitar e revisitar ambos os autores
visando verificar conceitos e apropriações de Schopenhauer por Freud, assim
como distanciamentos entre as perspectivas de ambos.
Já
com Platão, o texto Mito do andrógino, escrito por Cleyton de Andrade e Gilson
Iannini, trata de mostrar a importância do mito na construção teórica de Freud
quanto à questão da sexualidade. Centrado em mostrar o mito do andrógino no
discurso de Aristófanes, contido por sua vez em O Banquete/O Simpósio de
Platão, Andrade e Iannini (2020) se esforçam em recuperar os fundamentos da
busca de Freud pelo entendimento, ainda que não “científico”, da sexualidade.
Diante disso, recuperam uma gênese (ou relação, ainda que independente),
identificada por Freud, do mito do andrógino na filosofia hindu, como um mito
indiano mostrado nos Upanixades.
A
questão central que Freud parece estar buscando no mito do andrógino, conforme
está na seção VI de APP, suscita diferentes interpretações e possibilidades,
mas traz no cerne a ideia de superação da visão homem-mulher dissociada das
prevalências morais típicas para, em outro patamar, destacar a impossibilidade
de compreensões estanques e centradas em padrões. Livre disso, Freud consegue
promover uma irrupção de caminhos para a construção de sua metapsicologia
(inclusive na questão da pulsão de morte), ainda que o caminho inicial para tal
intento com o mito do andrógino seja um recurso devido aos limites da ciência
da época.
Na continuidade, agora em relação às Fontes científicas, Simanke (2020) busca
se opor às interpretações e leituras habituais do APP, que argumentam a favor
da tese de que que a referência biológica existente em Freud seria fantasiosa
ou metafórica.
Para
isso, defende três ideias centrais. A primeira é a de que a discussão sobre a
pulsão de morte ressoava também nos estudos científicos, sendo objeto de
diferentes pesquisadores da época. Segunda: a ideia de um impulso que leva os
organismos à morte era um dos temas centrais da biologia daquele período.
Terceira: as conclusões de Freud convergiam com referências biológicas daquele
período de Freud e, de acordo com Simanke (2020), também das teorias formuladas
atualmente. Diante das críticas sobre a
primazia do biológico, parece-nos que esse fundamento comparece em APP como
referência para dirimir as incertezas diante do espectro místico e metafórico
que em geral envolve a questão da morte. Como mostra Simanke (2020), a proximidade
com a biologia não é uma característica desse texto, mas o próprio modelo do
princípio de prazer é oriundo do discurso biológico da psicofísica. Assim:
O
recurso às ciências da vida em suas diversas subdivisões parece crucial para o
desenvolvimento do argumento freudiano nesse trabalho, não apenas pela
importância que lhes é explicitamente atribuída, mas também pela própria
extensão concedida ao longo do texto (SIMANKE, 2020, p. 378).
Dentre
diversas referências biológicas, Simanke (2020) objetivou discutir referências
explícitas e implícitas do APP, colocando sob a luz do conhecimento científico
o ideário discutido por Freud (2020).
Explorando
outras menções de Freud, Iannini e Tavares (2020) demonstram no texto dedicado
à discussão das Fontes literárias que
a busca pela literatura amarra a teia
argumentativa de Freud, ainda que apareça de forma sutil – quase invisível. A
sutileza dessa referência não retira, segundo os autores, a importância do
papel que as referências literárias ocupam, até mesmo no sentido de desmitologização da ciência.
Para
construir a argumentação, Iannini e Tavares (2020) recortam diferentes trechos
e sugerem uma análise e fundamentação literária ao uso de determinadas
sentenças. Em alguns momentos esse processo é constituído por Freud de forma
explícita, como a citação em que o autor finaliza a obra de APP e, em outros
momentos, de forma implícita, com o uso de termos como traço daimoníaco, ou mesmo ideias gerais, como o grau especulativo
de seu texto. De forma geral, Iannini e Tavares (2020) parecem buscar – e,
também especular sobre – possíveis menções poéticas de Freud ou mesmo
demonstrando ter sido ele leitor de diferentes referências literárias em voga
na sua época.
Finalmente,
o posfácio de Marco Antônio Coutinho Jorge parece cumprir a pretensão do
fechamento da obra de APP deixando questões a serem refletidas e discutidas
pelos pesquisadores e interessados que aí estão e que estão por vir. Ao
convocar referências de Lacan, o autor reflete sobre o caráter da pulsão de
morte enquanto viés clínico de implicação para o sujeito vinculado aos
conceitos desenvolvidos por Freud e por outros pesquisadores. A discussão
desdobra-se até a ideia defendida por Lacan de que toda pulsão é pulsão de morte, o que revelaria dois aspectos
conflituosos de uma mesma pulsão. Em
uma produção repleta de referências, pode guiar seus leitores a questões de
investigação, tanto em Freud como em outros autores psicanalíticos.
CONSIDERAÇÕES
POSSÍVEIS
Não é por acaso que esse texto de Freud ressoa
nos círculos psicanalíticos, tanto naquele momento histórico como atualmente,
já que a introdução da pulsão de morte constitui e demarca a psicanálise um
papel importante nos estudos sobre o indivíduo e sobre a sociedade para
diferentes áreas do conhecimento. Em APP, além dos limites da consciência, a
vida assume um papel secundário, ao
serviço da morte. Dessa forma, somos
brindados com a fundamentação da ideia de que o ser humano, bem como qualquer
outro organismo vivo, está fadado à morte, ainda que realize desejos, sejam
eles conscientes ou inconscientes. Nessa perspectiva, a morte não é só um
acontecimento inevitável, mas, também, uma busca constante, em vida, para
morrer à nossa própria maneira.
A
pulsão de morte, apesar de ter sido defendida por Freud, não foi um consenso
entre os demais autores e pesquisadores da psicanálise. De toda forma, o
convite à leitura de APP torna-se necessária para refletirmos e desenvolvermos
ideias sobre a pertinência ou impertinência desta força pulsional. O dossiê da
edição crítica fornece elementos para o debate – também questionável – sobre as
fontes às quais Freud possivelmente recorre ao desenvolver as suas ideias.
Esta
obra pode ser valiosa para estudantes, professores e pesquisadores que estão
iniciando a leitura da psicanálise, na medida em que têm diante de si uma
orientação que busca conduzir e propor um caminho interpretativo deste
importante texto de Freud, articulando e discutindo algumas lacunas deixadas
pelo pensador. Além disso, podem
recorrer também a ela, os especialistas, a fim de aprofundar seus conhecimentos
sobre os fundamentos da metapsicologia freudiana, e de propor outros caminhos
explicativos, diferentes daqueles a que até então se tinha acesso.
Como
em outras obras psicanalíticas, há a inquietação e o desequilíbrio de questões
consolidadas, permitindo a reflexão sobre a condição humana, a autodestruição e
a recondução do orgânico para o inorgânico, isto é, à dissolução da vida
orgânica. A matéria inorgânica – a morte – talvez nos mostre uma saída para as
perturbações que nos acossam. Enquanto ela não chega, o embate dialético
permanece. Freud também.
REFERÊNCIAS
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Sigmund. Além do princípio de prazer
[Jenseits des Lustprinzips]. Edição crítica bilíngue. Tradução e notas Maria
Rita Salzano Moraes; Revisão de tradução Pedro Heliodoro Tavares. Seguida do dossiê
para ler Além do princípio de prazer.
Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 348-368.
ANDRADE, Cleyton et al.
Fontes psicanalíticas: pequeno atlas de referências freudianas. In: FREUD,
Sigmund. Além do princípio de prazer
[Jenseits des Lustprinzips]. Edição crítica bilíngue. Tradução e notas Maria
Rita Salzano Moraes; Revisão de tradução Pedro Heliodoro Tavares. Seguida do dossiê
para ler Além do princípio de prazer.
Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 225-302.
CHAVES, Ernani. Eterno retorno do mesmo. In: FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer [Jenseits
des Lustprinzips]. Edição crítica bilíngue. Tradução e notas Maria Rita Salzano
Moraes; Revisão de tradução Pedro Heliodoro Tavares. Seguida do dossiê para ler
Além do princípio de prazer. Belo
Horizonte: Autêntica, 2020. p. 303-317.
DRAWIN, Carlos Roberto; FONSECA, Eduardo Ribeiro da. A morte como
finalidade da vida. In: FREUD, Sigmund. Além
do princípio de prazer [Jenseits des Lustprinzips]. Edição crítica
bilíngue. Tradução e notas Maria Rita Salzano Moraes; Revisão de tradução Pedro
Heliodoro Tavares. Seguida do dossiê para ler Além do princípio de prazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p.
318-348.
ERMIRA: Cultura, ideias e redemoinhos. Coluna Matutações. Goiás;
Disponível em: http://ermiracultura.com.br/ermira/.
Acesso em: 20 de setembro de 2021.
FREUD, Sigmund. Além do princípio
de prazer [Jenseits des Lustprinzips]. Edição crítica bilíngue. Tradução e
notas Maria Rita Salzano Moraes; Revisão de tradução Pedro Heliodoro Tavares.
Seguida do dossiê Para ler Além do
princípio de prazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 57-220.
IANNINI, Gilson; TAVARES, Pedro Heliodoro. Fontes literárias: subtexto,
suplemento e paradigma. In: FREUD, Sigmund. Além
do princípio de prazer [Jenseits des Lustprinzips]. Edição crítica
bilíngue. Tradução e notas Maria Rita Salzano Moraes; Revisão de tradução Pedro
Heliodoro Tavares. Seguida do dossiê Para ler Além do princípio de prazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p.
443-478.
IANNINI, Gilson; TAVARES, Pedro Heliodoro. Para Introduzir Além do
Princípio de Prazer. In: FREUD, Sigmund. Além
do princípio de prazer [Jenseits des Lustprinzips]. Edição crítica
bilíngue. Tradução e notas Maria Rita Salzano Moraes; Revisão de tradução Pedro
Heliodoro Tavares. Seguida do dossiê Para ler Além do princípio de prazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p.
21-35.
OLIVEIRA, Luiz Eduardo Prado de; IANNINI, Gilson. Prefácio. In: FREUD,
Sigmund. Além do princípio de prazer
[Jenseits des Lustprinzips]. Edição crítica bilíngue. Tradução e notas
Maria Rita Salzano Moraes; Revisão de tradução Pedro Heliodoro Tavares. Seguida
do dossiê Para ler Além do
princípio de prazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2020. p. 7-20.
SIMANKE, Richard Theisen. Fontes científicas: “Um reino de
possibilidades ilimitadas”. In: FREUD, Sigmund. Além do princípio de prazer [Jenseits des Lustprinzips].
Edição crítica bilíngue. Tradução e notas Maria Rita Salzano Moraes; Revisão de
tradução Pedro Heliodoro Tavares. Seguida do dossiê Para ler Além do princípio de prazer. Belo
Horizonte: Autêntica, 2020. p. 369-442.
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